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Brisa & Ventania
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Uma flor voava.

Por mais que pareça impossível,

uma flor voava.

Uma flor amarela ia voando,

e levava ao lado o seu botão fechado.

Parecia uma jovem graciosa

com sua bolsinha no braço.

Voava a flor amarela,

no ar indefinido.

 

E nuns troncos imensos,

muito grossos, muito altos,

uns troncos cheios de crepúsculo,

como colunas do céu,

sentinelas da vida,

nuns troncos muito escuros

iam pousando enormes borboletas flácidas,

amarelas e pretas,

que decerto pousavam para sempre,

sem rumo nem poder,

amarelas e pretas, muito sinistras,

muito flácidas, muito grandes.

 

E a pequena flor amarela voava,

solta, levíssima,

por um rumo secreto,

de alma evadida.

 

                 Setembro, 1970

 

 

Cecília Meireles, Uma Flor Voava, em ‘Poesia Completa’

(Fonte: ceciliameireles2009.blogspot.com.br)

Sais pelo sonho como de um casulo e voas.


Com tal leveza podes percorrer o mapa
e ir e vir ao acaso, ar e nome:
como as borboletas.

Não és tu, mas a tua memória com asas.

E abrem-se os palácios,
e percorres os tesouros guardados,
e és sorriso e silêncio
e já nem precisas mais de asas.

Na noite encontras o dia, claro e durável.
Voas sobre séculos e horóscopos.
Ouves dizer que te amam
como ninguém jamais o poderia confessar.

Não tens idade nem tribo,
nem rosto nem profissão.
Podes fazer o que quiseres com palavras, harpas, almas.

E quando voltas ao teu casulo
já não tens medo nenhum da morte.
E em teu pensamento há néctar e pólen.



Cecília MeirelesSais Pelo Sonho Como De Um Casulo E Voas, em ‘Poesia Completa’

  • Fotografia de Laura Villaverde

Senhora de olhos tão verdes

e tão dourada,

por que olhais com tal encanto

com verdes olhos de pranto

certa de não verdes nada,

pois são olhos sem pupilas

esses com que me fitais

de sibilas

penetrante e fatais…

 

De  mim chegaste mui perto

no alto dos noturnos muros

e entre mistérios escuros

vosso rosto descoberto

olhava com tal bondade

e melancolia

que eu nem sei de que verdade

em vos ver morria.

Cecilia MeirelesDiscurso de um sonho, em ‘Poesia Completa’

Em lã pesada e escura,

esconde-se Maria,

malgrado o ardente dia.

 

 

Tão cerrada clausura

pesa sobre Maria,

sem a tornar sombria!

 

 

Nessa densa espessura,

o rosto de Maria,

redondo e róseo, abria

uma eglantina pura.

(Nos olhos de Maria,

luz de abelhas corria.)

 

 

De lã pesada e escura,

vinha a voz de Maria:

água, vento, alegria…

Cecília Meireles, Estudo de Figura, em ‘Poesia Completa’

o-olhar-de-helena-blog:

À memória de
Jacinta Garcia Benevides
Minha avó


Neste mês, as cigarras cantam
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.

Mas tudo é inútil,
porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícia
do mundo que circula no vento.

Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero
das vespas…
- e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,
como água que borbulha.

Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro;
a areia queima, branca e seca.
junto ao mar lampejante;
de cada fronte desce uma lágrima de calor.

Mas tudo é inútil,
porque estás encostada à terra fresca,
e os teus olhos não buscam mais lugares
nesta paisagem luminosa,
e as tuas mãos não se arredondam já
para a colheita nem para a carícia.
Neste mês, começa o ano, de novo,
e eu queria abraçar-te.
Mas tudo é inútil:
eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.

__Cecilia Meireles, Elegia 2ª

(Fonte: we-love-rain)

o-olhar-de-helena-blog:

O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.

(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas,
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia… – não consentidas,
mas recebidas e esperadas!)

__Cecília Meireles, Transição

o-olhar-de-helena-blog:

Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

__Cecília Meireles, Atitude, in ‘Viagem’

(Fonte: lianabela)

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