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Brisa & Ventania
Now Playing Tracks

O vento sacode as palmeiras.

Não tardará a chuva.

Tem chovido tanto nos meus versos

que a chuva se tornou insuportável.

 

Apesar disso, os pássaros cantam.

São os melros de Messiaen.

Mesmo envelhecido

também o coração canta.

 

Acode-me aos lábios um nome.

É de noite: quando

a música cessa, o silêncio

como estrela brilha na boca.

 

Tenho pena das palmeiras

à chuva noite e dia, ao vento, ao sol.

Frente ao peso do mundo

são orgulhosamente lugar de amor.

 

 Eugénio De Andrade, Cantus Firmus, em ‘Os Lugares do Lume, 1998’

 

(Fonte: we-love-rain)

Este poema começa no verão,

os ramos da figueira a rasar

a terra convidavam a estender-me

à sua sombra. Nela

me refugiava como num rio.

A mãe ralhava: A sombra

da figueira é maligna, dizia.

Eu não acreditava, sabia bem

como cintilavam maduros e abertos

seus frutos aos dentes matinais.

Ali esperei por essas coisas

reservadas aos sonhos. Uma flauta

longínqua tocava numa écloga

apenas lida. A poesia roçava-

-me o corpo desperto até ao osso,

procurava-me com tal evidência

que eu sofria por não poder dar-lhe

figura: pernas, braços, olhos, boca.

Mas naquele céu verde de Agosto

apenas me roçava, e partia.

 

 

Eugénio De Andrade, A Figueira,

em ‘Os Lugares do Lume, 1998’

 

O Que se Pode Prometer

Pode-se prometer acções, mas não sentimentos, pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou odiá-lo sempre, ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas o que pode perfeitamente prometer são aquelas acções que, na verdade, são geralmente as consequências do amor, do ódio, da fidelidade, mas que também podem emanar de outras razões, pois a uma acção conduzem diversos caminhos e motivos.

A promessa de amar sempre alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, manifestar-te-ei as acções do amor; se eu já não te amar, pois, não obstante, receberás para sempre de mim as mesmas acções, ainda que por outros motivos. De modo que a aparência de que o amor estaria inalterado e continuaria sendo o mesmo permanece na cabeça das outras pessoas. Promete-se, por conseguinte, a persistência da aparência do amor, quando, sem ilusão, se promete a alguém amor perpétuo. 

Friedrich Nietzsche, in ‘Humano, Demasiado Humano’

Detesto seguir alguém assim como detesto conduzir. 
Obedecer? Não! E governar, nunca! 
Quem não se mete medo não consegue metê-lo a 
          ninguém, 
E só aquele que o inspira pode comandar. 
Já detesto guiar-me a mim próprio! 
Gosto, como os animais das florestas e dos mares, 
De me perder durante um grande pedaço, 
Acocorar-me a sonhar num deserto encantador, 
E forçar-me a regressar de longe aos meus penates, 
Atrair-me a mim próprio… Para mim. 

Friedrich Nietzsche, O Solitário, em “A Gaia Ciência”

Quero um mal de morte A estas almas incertas. Tortura-as a honra que vos fazem, Pesam-lhes, dão-lhe vergonha os seus louvores. Porque não vivo Preso à sua trela, Saúdam-me com um olhar agridoce. Onde passa uma inveja sem esperança. Ah! Porque não me amaldiçoam! Porque não me viram francamente as costas! Aqueles olhos suplicantes e extraviados Hão de enganar-se sempre a meu respeito. 

Friedrich Nietzsche, Estas Almas Incertas, em “A Gaia Ciência”
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Canon EOS 5D Mark II
ISO
400
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f/1,4
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1/500th
Focal Length
35mm

Quero um mal de morte 
A estas almas incertas. 
Tortura-as a honra que vos fazem, 
Pesam-lhes, dão-lhe vergonha os seus louvores. 
Porque não vivo 
Preso à sua trela, 
Saúdam-me com um olhar agridoce. 
Onde passa uma inveja sem esperança. 

Ah! Porque não me amaldiçoam! 
Porque não me viram francamente as costas! 
Aqueles olhos suplicantes e extraviados 
Hão de enganar-se sempre a meu respeito. 

Friedrich Nietzsche, Estas Almas Incertas, em “A Gaia Ciência”

Predestinada à tua órbita, 
Que te importa, estrela, a noite? 
Rola, bem-aventurada, através do tempo! 
Que a sua miséria te permaneça estranha. 
A tua luz está destinada ao mais distante dos mundos: 
A piedade deve ser-te um pecado. 
Admite apenas uma lei: sê pura! 


Friedrich Nietzsche, Moral Estelar, em “A Gaia Ciência”

Sim! A minha ventura quer dar felicidade; Não é isso que deseja toda a ventura? Quereis colher as minhas rosas? Baixai-vos então, escondei-vos, Entre as rochas e os espinheiros, E chupai muitas vezes os dedos. Porque a minha ventura é maligna, Porque a minha ventura é pérfida. Quereis apanhar as minhas rosas? 

Friedrich Nietzsche, As Minhas Rosas, em “A Gaia Ciência”


 
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Canon EOS 20D
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100
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f/4
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1/320th
Focal Length
77mm

Sim! A minha ventura quer dar felicidade; 
Não é isso que deseja toda a ventura? 
Quereis colher as minhas rosas? 
Baixai-vos então, escondei-vos, 
Entre as rochas e os espinheiros, 
E chupai muitas vezes os dedos. 
Porque a minha ventura é maligna, 
Porque a minha ventura é pérfida. 
Quereis apanhar as minhas rosas? 

Friedrich Nietzsche, As Minhas Rosas, em “A Gaia Ciência”

 

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