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Brisa & Ventania
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Tarefa

Morder o fruto amargo e não cuspir 
mas avisar aos outros quanto é amargo, 
cumprir o trato injusto e não falhar 
mas avisar aos outros quanto é injusto, 
sofrer o esquema falso e não ceder 
mas avisar aos outros quanto é falso; 
dizer também que são coisas mutáveis… 
E quando em muitos a noção pulsar 
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano 
de um mundo novo e muito mais humano. 

Geir Campos, 
Em ‘Canto Claro e Poemas Anteriores, 1957’

A que não veio e viria

 seria acaso Maria,

 a de cabelos de noite

 e pensamentos de dia

 abrindo ao mais triste escuro

 o seu clarão de alegria.

 

 Seria talvez Maria

 a que viria e não veio

 com seu samburá vazio

 e o seu espírito cheio

 de cores para ajudar

 a fazer bonito o feio.

 

 A de cabelos de noite

 e pensamentos de dia

 talvez sentisse que o mundo

 assim não a entenderia:

 urgente mudar o mundo

 para que venha Maria!

 

 Geir Campos, Urgência, em ‘Metenáutica, 1970’

  • Fotografia by Ульф Хедхинн

Esta epiderme há muitos muitos anos
me cobre: guarda algumas cicatrizes,
outras não lembra mais, e até mistura
uns caminhos da infância a outros de
agora.

As unhas não direi que são as mesmas
com que o seio nutriz terei vincado:
são mais duras, mais feias e mais sujas
_ pois nem sempre de amor e entrega
foi.

O chão em que plantei, colhi nem
sempre.

Se os dentes não gastei, gastei meus
olhos
entrevendo paisagens, vendo coisas,
cegando-me ante sésamos de sombra.

A alma apanhou demais e vai pejada,
mas vão leves as mãos cheias de nada.

Geir Campos, Inventário, em ‘Operário do Canto, 1959’

Não direi maravilhas
para que não duvides
num mundo assim pandemônio tornado:
antes, diria, era uma vez um homem
capaz de muito amar (inclusive mulher)
e que de amor tentou falar a uns
bárbaros
mas percebendo que não o entendiam
serviu-lhes numa Cruz a própria carne
e deu-lhes de beber o próprio sangue
e o que tinha a dizer trançou em fábulas
nem todas ainda agora debulhadas
e assim passou por deus na terra _ um
homem
desses que passam pensando em mudar
a estrada.

Geir Campos, O Pai ao Filho em Face do Cristo, em ‘Operário do Canto, 1959’.

o-olhar-de-helena-blog:

Dia para quem ama
Dia límpido e claro!
O azul do céu, o azul da terra, o azul do mar!
Dia para quem é feliz e sem tormento
Dia para quem ama e não sofre de amor!
Dia para as felicidades inocentes.

Em mim, a mocidade acordou violentamente
Porque o sol expulsou as trevas e inundou-me!
Uma pulsação de vida enche meu ser doentio e incerto.

Vejo as águas correndo
Vejo a vida e o espaço
Vejo as matas e as grandes cidades líricas
Vejo os vergéis em flor!
É a primavera! É a primavera!
Desejo de tudo abandonar e sair cantando pelos caminhos!

__Augusto Frederico Schmidt, Primavera II, in Um Século de Poesia

 

(Fonte: isabelfreire17)

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