www.2w.com.br
Brisa & Ventania
Now Playing Tracks

Em lã pesada e escura,

esconde-se Maria,

malgrado o ardente dia.

 

Tão cerrada clausura

pesa sobre Maria,

sem a tornar sombria!

 

Nessa densa espessura,

o rosto de Maria,

redondo e róseo, abria

uma eglantina pura.

(Nos olhos de Maria,

luz de abelhas corria.)

 

De lã pesada e escura,

vinha a voz de Maria:

água, vento, alegria…

Cecília Meireles, Estudo de Figura, em ‘Poesia Completa’

o-olhar-de-helena-blog:

À memória de
Jacinta Garcia Benevides
Minha avó


Neste mês, as cigarras cantam
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.

Mas tudo é inútil,
porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícia
do mundo que circula no vento.

Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero
das vespas…
- e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,
como água que borbulha.

Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro;
a areia queima, branca e seca.
junto ao mar lampejante;
de cada fronte desce uma lágrima de calor.

Mas tudo é inútil,
porque estás encostada à terra fresca,
e os teus olhos não buscam mais lugares
nesta paisagem luminosa,
e as tuas mãos não se arredondam já
para a colheita nem para a carícia.
Neste mês, começa o ano, de novo,
e eu queria abraçar-te.
Mas tudo é inútil:
eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.

__Cecilia Meireles, Elegia 2ª

(Fonte: we-love-rain)

o-olhar-de-helena-blog:

O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.

(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas,
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia… – não consentidas,
mas recebidas e esperadas!)

__Cecília Meireles, Transição

o-olhar-de-helena-blog:

Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

__Cecília Meireles, Atitude, in ‘Viagem’

(Fonte: lianabela)

o-olhar-de-helena-blog:

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

__Sophia de Mello Breyner Andresen, Cidade, in Obra Poética I

 

(Fonte: feahrs)

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.
 
 

Adalgisa Nery, Mistério

Fotografia de Simone Favale
Zoom Info
Camera
Nikon D7000
ISO
200
Aperture
f/5,6
Exposure
1/3th
Focal Length
40mm

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,

Há vozes nas fontes que gritam meu nome.

Minha alma distende seus ouvidos

E minha memória desce aos abismos escuros

Procurando quem chama.

Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.

Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome

E eu olho para as árvores tranqüilas

E para as montanhas impassíveis

Procurando quem chama.

Há vozes na boca das rosas cantando meu nome

E as ondas batem nas praias

Deixando exaustas um grito por mim

E meus olhos caem na lembrança do paraíso

Para saber quem chama.

Há vozes nos corpos sem vida,

Há vozes no meu caminhar,

Há vozes no sono de meus filhos

E meu pensamento como um relâmpago risca

O limite da minha existência

Na ânsia de saber quem grita.

 

 

Adalgisa Nery, Mistério

  • Fotografia de Simone Favale

Que estalem nos céus os trovões, os relâmpagos,
Que as nuvens se estilhacem
E as montanhas se rachem.
Que as estrelas se embaciem
E o sol se apague para que meu corpo não tenha sombra.
Que as correntes marítimas
Carreguem meus braços para as praias fétidas
E o vento impeça meus joelhos de se dobrarem.
Que o raio fulmine a única palavra boa que eu tinha.
Que meus olhos se apodreçam
E se transformem em água
Para que não se levantem além das raízes.
Que a gosma dos vulcões
Soterre meu sexo,
Que os vermes fujam da minha carne
E o pó se levante fugindo antes de eu passar.
Que o cheiro de minha boca
Resseque o grão embaixo da terra
E meus cabelos sirvam de corda para os enforcados.
Que minha língua se enrole enegrecida dentro de minha garganta
E me diga as maiores injúrias.
Que a terra seja fendida como um ventre de mulher,
Que a destruição absoluta
Desça sobre meu corpo, meus sentidos,
Meu espírito, meu passado,
Meu presente, meu futuro
E liberte minha origem
Da lembrança dos homens.

 
Adalgisa Nery, Eu Me Maldigo



Fotografia de Simone Favale
Zoom Info
Camera
Nikon D7000
ISO
200
Aperture
f/4,5
Exposure
1/6th
Focal Length
42mm

Que estalem nos céus os trovões, os relâmpagos,

Que as nuvens se estilhacem

E as montanhas se rachem.

Que as estrelas se embaciem

E o sol se apague para que meu corpo não tenha sombra.

Que as correntes marítimas

Carreguem meus braços para as praias fétidas

E o vento impeça meus joelhos de se dobrarem.

Que o raio fulmine a única palavra boa que eu tinha.

Que meus olhos se apodreçam

E se transformem em água

Para que não se levantem além das raízes.

Que a gosma dos vulcões

Soterre meu sexo,

Que os vermes fujam da minha carne

E o pó se levante fugindo antes de eu passar.

Que o cheiro de minha boca

Resseque o grão embaixo da terra

E meus cabelos sirvam de corda para os enforcados.

Que minha língua se enrole enegrecida dentro de minha garganta

E me diga as maiores injúrias.

Que a terra seja fendida como um ventre de mulher,

Que a destruição absoluta

Desça sobre meu corpo, meus sentidos,

Meu espírito, meu passado,

Meu presente, meu futuro

E liberte minha origem

Da lembrança dos homens.

 

Adalgisa Nery, Eu Me Maldigo

  • Fotografia de Simone Favale

Teço dia após dia

a mortalha que vestirei

Por enquanto

coloco botões

pequenos, grandes e coloridos

(caseio meus dias sempre antes de vivê-los)

 

Nos bordados já prontos

figuram borboletas

que levarão o melhor de mim

(restam duas ou três, não mais)

 

 A minha mortalha escolhe sua cor

à medida que é tecida

um dia é amarela

no outro já é vermelha

(nunca escolheu ser branca)

 

E prego flores nos bordados intermináveis

Há noites que experimento

e sinto o gosto da morte

confesso que gosto e gozo

mas sou impelida a despir-me

pra terminar de tecê-la

(ainda hoje desmanchei um babado de cravos)

 

Lília DinizUrdiduras

  • Fotografia de Pietro De Angelis
To Tumblr, Love Pixel Union