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Brisa & Ventania
Now Playing Tracks

Minha melhor lembrança é esse instante no qual,
pela primeira vez, me entrou pela retina
tua silhueta provocante e fina
como um punhal.
Depois, passaste a ser unicamente aquela
que a gente se habitua a achar apenas bela
e que é quase banal.

E agora que te tenho em minhas mãos, e sei
que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
e os teus sentidos são cinco brinquedos
com que brinquei;
agora que não mais me és inédita; agora
que compreendo que, tal como eu te vira outrora,
nunca mais te verei;

agora que, de ti, por muito que me dês,
já não me podes dar a impressão que me deste,
a primeira impressão que me fizeste;
— louco, talvez,
tenho ciúmes de quem não te conhece ainda
e, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda,
pela primeira vez!


Guilherme de Almeida, O Ciúme
Em ‘Poemas escolhidos, 1931’.

Ela veio bater à minha porta
e falou-me a sorrir, subindo a escada:
“ - Bom dia, árvore velha e desfolhada”
e eu respondi: “ -Bom dia, folha morta!”

Entrou: e nunca mais me disse nada…
Até que um dia (quando, pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada…

Então chamou-me e disse:“Vou-me embora!
Sou a felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz”

E foi assim que em plena primavera,
só quando ela partiu contou quem era…
E nunca mais eu me senti feliz!


Guilherme de Almeida, Felicidade

Perguntei à minha vida:
Como achar a apetecida 
felicidade absoluta?
E um eco me disse: 
— Luta!

Lutei. — Como hei de a esta pena
dar cadência serena
que suaviza, embala e encanta?
O eco, então, me disse: 
— Canta!

Cantei. — Mas, como, num verso,
resumir todo o universo
que em mim vibra, esplende e clama?
Então o eco me disse:
— Ama

Amei. — Como achar agora
a alma simples que eu pus fora
pelo prazer de buscá-la?
O eco, então, me disse:
— Cala!

Calei-me. E ele, então, calou-se.
Nunca a vida foi tão doce…
Tudo é mais lindo a meu lado:
Mais lindo, porque calado.

Guilherme de Almeida, O Eco
Em ‘Acaso, 1938’.

… que a gente encontra, às vezes, no fundo de um espelho.

Quem és tu? - Se eu soubesse, não diria.
De ondes vens? - De um país que não tem nome.
Quando chegaste? - Certa noite… um dia…
Sozinho? - Minha sombra acompanhou-me.
Que trazes? - A esperança de um “jamais”.
Vieste? - Lembrar ou esquecer aqui.
Lembrar o quê? - Já não me lembro mais.
Vieste esquecer o quê? - Já me esqueci.


 Guilherme de Almeida, O Estrangeiro

A rua mastigaos homens: mandíbulasde asfalto, argamassa,cimento, pedra e aço.A rua degluteos homens: e nutrecom eles seu sôfrego,omnívoro esôfago.A rua digereos homens: mistériodos seus subterrâneoscom cabos e canos.A rua dejectaos homens: o poeta,o agiota, o larápio,o bêbado e o sábio.


 Guilherme de Almeida, Rua
Zoom Info
Camera
Canon EOS 5D Mark II
ISO
1600
Aperture
f/4
Exposure
1/30th
Focal Length
200mm

A rua mastiga
os homens: mandíbulas
de asfalto, argamassa,
cimento, pedra e aço.

A rua deglute
os homens: e nutre
com eles seu sôfrego,
omnívoro esôfago.

A rua digere
os homens: mistério
dos seus subterrâneos
com cabos e canos.

A rua dejecta
os homens: o poeta,
o agiota, o larápio,
o bêbado e o sábio.


 Guilherme de Almeida, Rua

Ser fragmento do transitório,
Analizar-se no mistério do desmudado,
Saber perder o que jamais foi possuído
Mas desejado,
Esperar o que nunca foi criado,
Cravar-se em raízes já extintas,
Conduzir-se por ideias não nascidas
Ver grandezas na própria fraqueza,
Proclamar o amor sobre o desamor,
Ser pureza ao lado da degradação
É existir no que não tem sentido,
É esquecer o que não foi pensado,
É caminhar sem deixar traços,
É ser pássaro sem asas
É tentar sair do chão para os espaços


Adalgisa Nery, Rotina de Todos Nós, em ‘Erosão’.

Repousa. Descansa. Virá um dia
vento
Que arrancará a tua balançada alma do
teu corpo
E jogará a tua balançada alma do tempo.
Que jogará teus braços para nuvens
distantes
E deixará tranquila tua orelha
À borda das águas cantantes.
Um vento suave como a carícia de uma
doce mão
Que se envolverá no brilho dos teus
cabelos
Que descerá desde o teu cérebro
Até o fundo do teu amargurado coração.
Cairá sobre ti, como a noite sobre a mata
e sobre as flores
Desdobrará as formas dormidas
Deita-se-á sobre teus sentidos
E estancará tuas dores.
Um vento que levará para a eterna
distância.


Adalgisa Nery, Cantiga de Ninar, em ‘Mundos Oscilantes, 1962’.

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